MEMÓRIA
-Expedições do cientista incluíram a conquista do Pico Paraná e o mapeamento do Rio Tibagi
Acervo de Maack revela um Paraná extinto [07/11/2004]

Exposição apresenta fotos e filmes do naturalista alemão, que morreu em 1969
Em julho de 1941, um grupo liderado por Reinhard Maack conquistou o cume do Pico Paraná, o mais alto da Região Sul. Mas esse alemão, que adotou o Brasil como segunda pátria, foi muito mais que um montanhista: geólogo, naturalista, visionário, fotógrafo, cinegrafista, cidadão do mundo e apaixonado pelo Brasil e pelo Paraná, mas conhecido apenas por especialistas em meio ambiente. A partir de 17 de novembro, uma exposição multimídia em Curitiba dará ao público a chance de saber mais sobre Maack, que passou boa parte da vida no Paraná e, já na década de 50, alertava sobre os riscos do desmatamento sem critério.
O engenheiro agrônomo Alessandro Casagrande e o biólogo Adílson Brito, da consultoria ambiental Lobo-Guará, estão organizando o material para a mostra “A História Ambiental do Paraná de Reinhard Maack”. Em 2001, eles viram pela primeira vez um trecho de filme feito por Maack e se entusiasmaram. A dupla procurou os parentes do pesquisador, que morreu em 1969, e encontrou sua filha, Úrsula, que lhes deu acesso a um acervo de quase mil fotografias e 15 latas de filme 16 milímetros.
As fotos, a maioria no formato 9,5 por 7,5 centímetros, foram meticulosamente catalogadas por Maack, em alguns casos até com o dia em que foram feitas. Delas, 50 foram ampliadas para a exposição. As filmagens tiveram de ser convertidas para um novo formato. “O Colégio Marista Santa Maria colocou à nossa disposição a única máquina de telecinagem do Sul do Brasil”, explica Casagrande. O trabalho rendeu 15 horas de vídeo, das quais os visitantes verão uma seleção de 15 minutos, apenas do Paraná. A qualidade das filmagens, muitas feitas nos anos 20 e 30, surpreendeu a dupla da Lobo-Guará por sua nitidez, comparável à da época do Cinema Novo.
Nas fotos e filmagens, vários registros de um Paraná que não existe mais. A foz do Rio Tibagi, no Rio Paranapanema, virou represa. Sete Quedas, que Maack também filmou, teve o mesmo destino. Espécies de peixes como a juropoca não são mais encontradas no Tibagi. E os índios Xetás, com quem Maack fez contato durante uma expedição, estão praticamente extintos.
A câmera do pesquisador também viu a fundação de Londrina. “Ele percebeu o desmatamento desordenado para dar lugar à cidade”, diz Casagrande. Para o professor Gert Hatschbach, fundador do Museu Botânico de Curitiba e colaborador em um dos livros de Maack, os alertas do geólogo não foram levados a sério. “As autoridades não lhe deram ouvidos. Na época, achavam que a floresta não acabaria nunca”, lamenta.
A exploração intensa da madeira era uma das grandes preocupações de Maack. “Ele veio de um lugar que tinha passado pelo mesmo processo. Mas na Europa a natureza se adaptou porque o desmatamento durou 1.500 anos, enquanto no Brasil tudo ia rápido demais”, argumenta Brito. “Maack sabia que a floresta conserva os recursos hídricos, mas o uso responsável do solo é impopular politicamente”, diz o geólogo João José Bigarella, que trabalhou com Maack e se tornou um de seus grandes amigos.
Casagrande lembra que, ao observar a redução das áreas verdes, Maack fez previsões que se mostraram acertadas: “ele disse que, se a mata não fosse reposta de forma correta, haveria catástrofes naturais. Maack alertou para a fragilidade do solo em certas regiões do Paraná, e hoje vemos o problema da erosão prejudicando não só o meio ambiente, mas também a economia. Para Bigarella, ainda há tempo para levar a sério os avisos do pesquisador. “Mas estamos no último momento para reagir”, adverte o professor. A exposição também faz parte das comemorações pelos 180 anos da imigração alemã no Brasil e 175 anos da presença alemã no Paraná. “A mostra devia ter sido realizada no ano passado, mas sugerimos que fosse adiada para
da Lobo-Guará por sua nitidez, comparável à de filmes da época do Cinema Novo.
A exposição também faz parte das comemorações pelos 180 anos da imigração alemã no Brasil e 175 anos da presença alemã no Paraná. “A mostra devia ter sido realizada no ano passado, mas sugerimos que fosse adiada para 2004”, conta a diretora do Instituto Goethe, Claudia Roemmelt Jahnel. O Goethe também está financiando a tradução de uma pequena biografia de Maack, publicada na Alemanha.
“Entre os especialistas, Maack é venerado por suas contribuições, mas o público, que não o conhece, tem muito a aprender com ele”, diz Hatschbach. “A questão ambiental vai definir nosso futuro, e as pessoas precisam conhecer o trabalho de quem lutou pela mata”, diz Claudia.
Serviço: A História Ambiental do Paraná de Reinhard Maack. 17 de novembro a 19 de dezembro Memorial de Curitiba (Rua Claudino dos Santos, s/n.º), último piso. Entrada franca. Mais informações em http://www.loboguara.com/projetos/maack.html.
Marcio Antonio Campos
Fonte: Gazeta do Povo |